sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Vergonha é roubar e ser apanhado

Eu a atender ao balcão. A chefa idem.
Entra um homem, sem rodeios, com mau aspecto. 2 sacos, uma mala a tiracolo. 

Não sei se lhe hei-de chamar olho clínico ou chata cumá potassa. Pegou num creme para pés. Discretamente olhou para mim. Cara de má e olhos nele. A minha utente estava de abalada. Mudou de lado. Para o da minha chefa, num início de atendimento. Botou a mão a um creme de 80€. Virou-se de costas, pô-lo debaixo da camisa. 

Lá vou eu lançada. Sou quase aquele tipo de polícia que diz Psssshhht, oh amigo. Mas ainda mais directa. Quase em cima dele e digo Se calhar é melhor dar-me o creme que guardou antes que chame a polícia. Diz a minha chefa que depois foi gato e rato. Eu atrás dele, entre ele e a porta, até ao sítio onde tinha deixado os sacos para enganar os ingénuos. Entretanto murmurava, sem dentes, Oh Dra., oh Dra., desculpe lá, eu não queria. Pegou nos pertences, deu-me o creme e até sair porta fora dizia Que vergonha, que vergonha. Parou à porta. Que vergonha! 


Vergonha de roubar e ser apanhado. 
Pena a farmácia não estar cheia. Não que a vergonha fosse ser diferente. 
A ultima coisa que lhe disse foi Estou à espera que se vá embora.

Love

- Gostas de mim? 
- Muito.
- A sério?
- Tu perguntas, eu respondo que sim. Quando deixar de gostar, eu digo.


Quando?!?

A um mês de estarmos juntos há um ano, não sei se ele sobrevive ao fim‑de‑semana. Vou matá-lo de beijos.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Argo

No fim, é o rezingão de cabelo lambido e bigodão farfalhudo que os salva a todos.

Trim trim, trim trim, trim trim

Aqui há tempos, queixava-se-me o homem de um atendimento telefónico, que era impossível, que nunca atendiam, que nem sequer estava interrompido. Defensora dos pobres, oprimidos e trabalhadores suados, falei-lhe da minha experiência. O telefone pode tocar ininterruptamente durante minutos e minutos que, enquanto houver pessoas para atender presencialmente, não o atendo. Talvez fosse o caso.

Agora imaginem-me a ligar para um serviço público, de saúde, que sei ter telefonista. Responsabilidade? Atender o telefone. Ligo de manhã. Toca, toca, toca. Depois aparece a voz da menina da PT. Insisto. Toca, toca, toca. PT/MEO/TMN/RaiosOsPartam. Dou o desconto. A senhora telefonista pode ter ido ao wc, número 1 ou 2 têm tempos distintos; pode ter ido fumar, comer, tomar um café, desenrolar o fio do telefone até à outra ponta da assoalhada, dar duas de letra com o senhor segurança, whatever. Insisto. Desisto. Mais tarde, insisto. 15h, tento de novo. Até abro os olhos de espanto quando me atendem. Em 15 minutos, e apenas para ter uma informação, falo com 5 pessoas diferentes até se me acabar o saldo do iCenas. Falo 5 segundos com cada uma e depois de esperar mais de 4 minutos por cada reencaminham-me que é uma beleza. A chamada cai. Insisto. Insisto. Insisto. À terceira é de vez. Começo logo por refilar dos 15 minutos, depois do tempo para atender o telefone. Ai senhora, desculpe, estava aqui apertadinha, tive que ir à casa de banho, já estava há 5 minutos a segurar. Pedi para me passar para o sítio correcto desta feita. Passo já e é para a chefa. Chefa ocupada. Olhe, aguarda um bocadinho que vou a correr ao primeiro andar e dou-lhe já a resposta. Amanhã tenho que ligar outra vez. Quem sabe segunda.

Fui lá duas vezes. Na primeira, fiz logo uma reclamação por escrito. Fiquei conhecida por 4 funcionários. Na segunda, não pude fazer o que quis, telefone Quinta ou Sexta. Telefonei. Telefone Segunda.


Pela segunda vez, aos 30 e no mesmo sítio, cheira-me que vou assentar arraiais naquela mesa redonda e pedir o livro. Afinal de contas, a senhora até já me conhece... 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Tenham a bondade de me auxiliar

Vocês, seus internautas, que usufruem dos serviços MEO/TMN/RaiosOsPartam e que são bloggers/instagram(m?)ers/facebookers e outros que tais e que acedem a este maravilhoso mundo do social ou que simplesmente passam a vida no whatsapp ou a ver filmes porno no vosso smartphone, acheguem-se a mim.

Pergunta simples. 
Estou fidelizada a eles e não vale a pena discussão. 
Que tarifário supimpa têm vocês cujo tráfego de internet não se gaste em 15 dias?

Três. À bruta.

Eles são três.
Três a pretenderem tratar-me da saúde.

O mais pequeno assume-se como desentupidor de canais. Quer secar-me!! Três vezes por dia!!
O maior, assustador para as mais inexperientes, bojudo e roliço, assume querer tratar-me da boca. Ir-me à garganta. Principalmente de manhã.
A mais recente conquista apresenta-se com uma mescla de cores saudáveis. Ponta arredondada e rosa. O que me quer dar conta dos espasmos. Gosto de me entregar a ele à noite.

Três. 
Três a quererem dar-me conta do corpo.
X vezes por dia.



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Não mata mas mói

Sabem aquela pessoa que passa o dia convosco e está sempre a tossir? Três cof cof, dois, meia dúzia, alguns a arranharem a garganta?


Sou eu.
Já ninguém me atura. 
No trabalho. 
Em casa. 
No metro. 
No restaurante.



E o cómico que é pinar assim?

Daquilo da culpa ser das estrelas - sem spoilers*

Um dramalhão. 
Um P.S.: I love you com variantes de A walk to remember do Sparks. Ou vice-versa. Ou 2 em 1.

Achei piada ao papel do miúdo mas fiquei com ele atravessado. Houve ali qualquer coisa que não me convenceu. Desengonçado!

Dafoe. Tem cara de maléfico. Perfeito para o papel.

A jovem? Esteve bem. Muitos dias deve ter andado com aquela garrafa de oxigénio atrás para não se esquecer dela.

Vi o filme sem saber todos os meandros da história. Mas foi chegar logo à cena do grupo de apoio em que o jovem se apresenta para saber o que me esperava.

Se gostei? Da ligeireza com que se falava do cancro, do aceitar a morte, da vida com cancro, do esquecimento, de passar sem deixar rasto, do viver hoje porque amanhã não sei se cá estou? Claro. Do filme em si? Honestamente? Não. Feito para ser um dramalhão vendável. Imagino o livro.


Já podemos falar do filme da Scarlett? Que acharam do Lucy?


*toda a gente sabe quem morre no fim, certo??

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Pergunta!

Imaginem que alguém do vosso círculo íntimo vos diz:


Sabes, és como o vinho. Tinhas potencial, presença, prometias. Mas depois abriu-se a garrafa, provou-se e saiu-se desiludido. Não revelaste o potencial inicialmente mostrado. Ficaste muito aquém. Tu sabes a vinho que tem que se martelar muito. És dos que têm que ser muito muito martelados para saber bem.



Cruel? 
Frontal?
Demasiado frontal?
Demasiado sincero?
A arranhar o burgesso?
A roçar o ressabiado?
Frio?

Até tive um ataque de tosse

Olha-me para o fio ao pescoço.
Wtf?
O que foi?
I came in like a wrecking ball...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Chegadinha ao trabalho

Éramos três.
- Olha para os olhos daquela. 
Eu olho.
- Ai ontem vi aquele filme das estrelas. Gostei tanto.
- Sozinha em casa?
- Sim. O meu namorado bem disse para não o ver.
- Até meteu sangue ao barulho.
- Então?
- Sangrei do nariz. 


Eu bem ando a adiar ver o filme. Se me dá para o ver assim, com gosma verde nos cornetos nasais e seios perinasais e tendo em conta que até choro a ver o programa parvo do Undercover boss ou a final do Masterchef com o Luca, das duas uma: ou me sai tudo em catadupa e não há lenços que me valham ou fica lá tudo e só sai a martelo pneumático. Aí, com o bruta tamanho das olheiras, é que vou ver se o homem me quer pelas mamas ou pela mente brilhante.

Afónica e su hombre

Ele aproxima-se dela, trocam algumas palavras.
- Mas a sério, estás mesmo a falar assim?
- Não, pá, estou a fingir. - arranha ela.
- Ah bem, então agora podes ir para casa e comer uma bela taça de gelado bem fresquinho.
(Olhar de reprovação)


Ontem à noite, ela estava na cama. Ele aproxima-se, senta-se do lado dela, fala-lhe das olheiras que a acompanham e pergunta-lhe se ela ainda gosta dele.
- Claro que sim, gosto muito de ti. - arranha ela, enquanto o abraça e lhe dá beijinhos no pescoço e ombros.
Ele responde:
- Se fosse verdade, dizias isso em alto e bom som.
(0_o)


Pela manhã, ele, já com um pé praticamente fora de casa, pede-lhe que repita uma expressão que faz rir os dois. Ela di-lo. Ele ri-se. E diz:
- Tens que te gravar a falar assim.
- Mas eu oiço-me, sei como estou.
- É diferente. Devias gravar. Melhor, devias gravar-te a cantar. O Atirei o pau ao gato, por exemplo.


Ele saiu, ela tirou o som da televisão que a acompanha enquanto toma o piqueno, pegou no telemóvel, carregou no REC e começou a cantar enquanto se regalava com a pérola de homem que tinha com ela.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Isto teve N rascunhos, eram para ser três, saiu só num. Tudo ao molho efé em Deus

É chegar a casa e despir.
Pensar Vou ao banho mas acabar por ir parar à cozinha para lavar a loiça.
Pôr a massa quebrada a descongelar.
Receber o homem.
Tomar banho.
Cozer a massa no forno.
Desfiar as sobras de frango que andavam lá em casa.
Descascar as cenouras, lavar e ralar.
Lavar os tomates mais maduros e cortá-los.
Descongelar as delícias do mar e cortá-las.
Cortar em pedaços o nico de queijo de cabra e de cabra e ovelha que havia por lá.
Partir e mexer os ovos.
Adicionar natas.
Temperar. Óregãos bastantes.
Ponderar adicionar a metade da farinheira que anda no frigorífico. Desistir.
Espalhar o conduto em cima da massa quebrada.
Botar queijo da ilha ralado por cima.
Botar a mistura dos ovos e natas.
Mais queijo da ilha. Mais óregãos.
Forno com ela.
Tratar da salada.
Fazer tempo.
Actualizar o cartão do cidadão.
Tentar aquilo do Simplex que não passa de uma bela teoria.
Comer a sopinha de alho francês.
Deixar arrefecer a quiche.
Cabecear no sofá às 21h30. 21h30!
Comer a quiche com uma saladinha supimpa e um (UM!) copo de lambrusco.
Comer umas lascas de gelado para matar a gula, com o homem a abanar a cabeça em sinal de reprovação porque não se ouve a minha voz, só uns arranhares.
Dar no Nasorhinathiol para desentupir a penca. A partir de dada altura, ojóios pesam demais com a obstrução nasal.
Sofá.
Cabecear.
Cabecear mais.
Pumba.
Cama à meia noite, em modo automático, depois de acordar estremunhada no sofá e de ir ao último chichi e lavar os dentes.
Despertar maijómenos com o homem a perguntar se quero massagem nas costas menos doridas. Nem me lembro se cheguei a responder ou se adormeci logo que fechei os olhos.


7h depois, sem a sensação de despertar pelo caminho, acordo. Morta de sono. Olhos a fechar, pesados. Falo sozinha. Teste, teste, experiência, 1, 2, 3.
Vou trabalhar.
A chefa responde-me em rouca a fingir.
A colega diz que estou pior que ontem.
A primeira pessoa que atendo deseja-me as melhoras.
Ao telefone, está constipada?
Ao balcão, cuspo fogo quando me dizem com ar engraçadinho Se calhar, já ia à farmácia.
A melhor: ai, tem aí um problema no pescoço.


Depois põem-me na mão uma revista Despertar. Tasco vazio, tudo nas traseiras, subo para um tamborete e declamo partes do Sabe como fazer as pazes? porque o Emídio e o Felipe, vizinhos, se zangaram e Deus não gosta. Melhor, declamo em brasileiro, que não conseguem fazer a conversão para o português de Portugal. Pedem-me em versão IURD. Declamo fervorosamente, rouca e com gosma pelo caminho, enquanto vejo vénias, oiço Amén e o pedido da dízima de 90% do ordenado. Tento a versão nordestina mas já não sai. Depois leio a parte do Apanhe aves para o seu jardim, porque Jesus, segundo São Mateus, disse para não nos preocuparmos em comer e beber porque as aves não semeiam ou colhem. Passa-se para experiências pessoais, pesadelos, conversas com mortos, quinta dimensão, ascensão e não morte e a transformação em almas muito grandes, magras e loiras. Pesquiso no Google. Vamos virar anjos de luz, depois de fazer um curso ascensional de 120 reais. Pelo caminho, ficamos seres mais despertos e temos múltiplos e adoráveis relacionamentos amorosos na busca da alma gémea. O sexo sagrado.


Sinto-me uma carochinha cuspidora de fogo a caminho de ser um anjo de luz badalhoco na Twilight Zone.

Tem graça...

Consigo estar mais afónica hoje que ontem.


Se o tipo do tasco do café já gozava comigo ontem, hoje, que já atendi 3 pessoas em 7 minutos logo pela fresca que ficaram a olhar para mim de olhos esbugalhados por não entenderem o que disse como se falasse cantonês, estou para ver...

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

E vocês já foram ao banho?

É abrir o FB e levar com os vídeos dos anónimos, dos famosos e dos amigos a tomarem banho. Passou-me à frente pela primeira vez no FB com uma amiga dos tempos do 9° ano. Na altura era pelo não pagar o jantar. Vês, vês, achava que não tinha coragem, vês, vês. E foi a própria com um belo do balde ou alguidar.

Agora é mais fino. Atiram-te a água a ti. Com direito a cubos de gelo e tudo. 
[cartoon]

Diz que é uma campanha de solidariedade. De recolha de fundos. Mas diz que é uma campanha norte-americana. Diz que em Portugal não se sabe se chegará dinheiro apesar de haverem aí vídeos de banhos gelados no FB, Instagram e youtube a rodos. 


Perdoem a minha descrença e a minha inguinorância que ainda não fui aos sites onde se apela ao banho para verificar as condições mas quem é que acredita que há dinheiro envolvido? 


Sensibilização? Mediatização? 
Conseguido.
Pilim? 
Duvido.