É chegar a casa e despir.
Pensar Vou ao banho mas acabar por ir parar à cozinha para lavar a loiça.
Pôr a massa quebrada a descongelar.
Receber o homem.
Tomar banho.
Cozer a massa no forno.
Desfiar as sobras de frango que andavam lá em casa.
Descascar as cenouras, lavar e ralar.
Lavar os tomates mais maduros e cortá-los.
Descongelar as delícias do mar e cortá-las.
Cortar em pedaços o nico de queijo de cabra e de cabra e ovelha que havia por lá.
Partir e mexer os ovos.
Adicionar natas.
Temperar. Óregãos bastantes.
Ponderar adicionar a metade da farinheira que anda no frigorífico. Desistir.
Espalhar o conduto em cima da massa quebrada.
Botar queijo da ilha ralado por cima.
Botar a mistura dos ovos e natas.
Mais queijo da ilha. Mais óregãos.
Forno com ela.
Tratar da salada.
Fazer tempo.
Actualizar o cartão do cidadão.
Tentar aquilo do Simplex que não passa de uma bela teoria.
Comer a sopinha de alho francês.
Deixar arrefecer a quiche.
Cabecear no sofá às 21h30. 21h30!
Comer a quiche com uma saladinha supimpa e um (UM!) copo de lambrusco.
Comer umas lascas de gelado para matar a gula, com o homem a abanar a cabeça em sinal de reprovação porque não se ouve a minha voz, só uns arranhares.
Dar no Nasorhinathiol para desentupir a penca. A partir de dada altura, ojóios pesam demais com a obstrução nasal.
Sofá.
Cabecear.
Cabecear mais.
Pumba.
Cama à meia noite, em modo automático, depois de acordar estremunhada no sofá e de ir ao último chichi e lavar os dentes.
Despertar maijómenos com o homem a perguntar se quero massagem nas costas menos doridas. Nem me lembro se cheguei a responder ou se adormeci logo que fechei os olhos.
7h depois, sem a sensação de despertar pelo caminho, acordo. Morta de sono. Olhos a fechar, pesados. Falo sozinha. Teste, teste, experiência, 1, 2, 3.
Vou trabalhar.
A chefa responde-me em rouca a fingir.
A colega diz que estou pior que ontem.
A primeira pessoa que atendo deseja-me as melhoras.
Ao telefone, está constipada?
Ao balcão, cuspo fogo quando me dizem com ar engraçadinho Se calhar, já ia à farmácia.
A melhor: ai, tem aí um problema no pescoço.
Depois põem-me na mão uma revista Despertar. Tasco vazio, tudo nas traseiras, subo para um tamborete e declamo partes do Sabe como fazer as pazes? porque o Emídio e o Felipe, vizinhos, se zangaram e Deus não gosta. Melhor, declamo em brasileiro, que não conseguem fazer a conversão para o português de Portugal. Pedem-me em versão IURD. Declamo fervorosamente, rouca e com gosma pelo caminho, enquanto vejo vénias, oiço Amén e o pedido da dízima de 90% do ordenado. Tento a versão nordestina mas já não sai. Depois leio a parte do Apanhe aves para o seu jardim, porque Jesus, segundo São Mateus, disse para não nos preocuparmos em comer e beber porque as aves não semeiam ou colhem. Passa-se para experiências pessoais, pesadelos, conversas com mortos, quinta dimensão, ascensão e não morte e a transformação em almas muito grandes, magras e loiras. Pesquiso no Google. Vamos virar anjos de luz, depois de fazer um curso ascensional de 120 reais. Pelo caminho, ficamos seres mais despertos e temos múltiplos e adoráveis relacionamentos amorosos na busca da alma gémea. O sexo sagrado.
Sinto-me uma carochinha cuspidora de fogo a caminho de ser um anjo de luz badalhoco na Twilight Zone.