A tentar não pensar que estás em jejum, que tens um penso no braço e que tiveste que fazer o pipi para o copo duas vezes porque o primeiro verteu, a pensar naquilo que te dizem, de noite às escuras, e que te fazem rir e sorrir enquanto estás aninhada pele com pele noutro corpo, a pensar no Natal e nas prendas que não comprei e que não me apetece perder tempo a comprar, a pensar no jantar de Natal do tasco e no fim‑de‑semana que se aproxima. Isto enquanto te diriges para o café de sempre, ainda que falte uma hora para te pores a trabuquir, para comeres aquele fantástico pão de sementes com queijo.
Estou à espera para atravessar a rua quando vejo a sobrinha da dona A. do lado oposto. O sinal está verde para os peões mas não me movo e espero que a senhora chegue até mim. Dou-lhe os meus sentimentos, falamos sobre a tia. Conheci a dona A. há três anos atrás. Vinha medir a tensão arterial diariamente. Por hábito, diria. Completamente descompensada. Não ligava nenhuma. Um dia cheguei ao trabalho e levei com a notícia do AVC. Não falava, não mexia, acamada. Fez fisioterapia, fez terapia de fala. Percebia-nos, falava por gestos acompanhados de gemidos. Continuava a ir medir a tensão pelo próprio pé. Agora acompanhada pela filha ou sobrinha. A diabetes estava controladíssima pela filha sempre presente e em cima do acontecimento. Tínhamos insulina só para ela. A hipertensão idem, controlada por um conjunto de medicamentos dados sempre à hora certa. Notícia de um tumor. No fígado. Zona abdominal sempre inchada. Úlcera causada por anti-inflamatórios, fezes com sangue, internamentos sucessivos.
Desta vez, estava na casa da família no norte. Veio directamente para o hospital em Lisboa. "Rebentaram-lhe os órgãos". Inchada, ainda depois de aspirado o líquido da zona abdominal, a escorrer sangue pela boca, um babete a amparar os fluidos, os lábios inchados e negros, de olhos fechados. Esta é a ultima imagem que a família tem dela. Essa e a do caixão a entrar no forno crematório. Por qualquer estranha razão, faz-me lembrar o meu avô. Não sei lidar com visitas ao hospital, com despedidas, com a decadência física e a dependência dos outros. Dói-me. Como desde pequena, quando ia passear à Baixa com a mãe e via os mendigos a pedir na rua, ao frio. Dizia sempre à mãe para dar moedas enquanto tinha os olhos cheios de lágrimas e acabava o passeio triste e com o coração pequenino.
Acredito que a dona A. está melhor agora e que a sua família, a seu tempo, perceberá que aquela era a sua hora, talvez já há muito adiada. Eu continuarei a recordá-la como a senhora bem disposta que cantava, ria e distribuía beijinhos ao chegar e ao sair.