Eu não ia falar sobre isto. Não ia mesmo. O assunto já foi falado em todo o lado. Se vi? Vi. Ponto.
Mas então, estava eu no trabalho. Uma colega a atender uma senhora, as restantes colegas no almoço, eu livre. Aparece uma pessoa para ser atendida. Compra já nem sei o quê. À saída, como quem não quer a coisa, diz que, já agora, queria informações sobre uma prateleira em específico. Suplementos alimentares para estímulo da libido. A senhora, forte, entroncada, bem constituída, diz que o namorado se queixa que ela parece morta já faz 8 meses. Que é diabética, que faz medicação oral e insulina, que tem sempre os pés muito inchados, que lhe falaram em várias coisas mas que ela tem medo de experimentar. Mas que realmente não tem vontade. Não quer. No pasa nada. E tem 60 anos, a caminho dos 61, não está morta! Enquanto isto, aponta para o expositor, tira dúvidas, insiste em determinado tipo de suplementos. Até me tinham recomendado Viagra mas tenho medo. Trato-a no feminino, percebo que direcciona as dúvidas para a utilização no sexo masculino e, intimidada, finalmente sussurra Sou um travesti. Claramente a mostrar-se mulher, unhas compridas de gel nas mãos, verniz vermelho nas unhas dos pés, maquilhada, cabelo comprido, valente par de mamas. Com pilinha ou pipi, i don't care. E a dica do Viagra era bem suficiente. Ainda assim, assumiu. Pediu-me desculpas e desculpas e desculpas, que não tinha facilidade em falar daquilo, do estar morta no sexo e de ser um travesti, que as pessoas não sabiam lidar com aquilo, com tudo, que já tinha falado com a médica e que a resposta tinha sido Quando encontrar parceiro fixo, logo ressuscita. E vai daí, da vida envergonhada e sussurrada que sempre levou ao badalado novo hit Rise like a phenix, clara metáfora da vida de quem passa por isto, foi um pulinho. Viu o sururu qui foi? Todos odeiam a gentxi. E a Conchita cantou tão bem, mi arrepiou toda. Líndá. Por quê tanto sururu?
Atenção, sou a primeira a gozar. A brincar. Com tudo. Com travestidos bonecas popozudas com vozeirão de homem que se chamam Ruberlindo, com gays cheios de tiques, com velhos sem dentes, com homens de fato mas com hálito a alho e tabaco, com polimedicados de psiquiatra com olhar de burro a olhar para o palácio, com boazudas bem apresentadas mas com sotaque mitra, com californianas ordinárias, com unhas de gel cheias de flores e prateados, com amigas que querem Bimbys, com colegas que estimo mas que me fazem rir com o sotaque, com o homem e a sua posição à patrão quando dorme, com o JJ nas suas conferências de imprensa. Sou uma piquena que, em apanhando o pormenor da pessoa, não páro. Passo as noites a imitar uma tipa que cantava I kill that bitch com um prognatismo muito muito marcado. Gosto de brincar mas tenho um coração d'oiro. E sou chorona que dói. Era ver-me a passear na Baixa, quando pequena, de olhos rasos de água porque não podia ajudar todos os pedintes sujos e doentes que habitavam à porta das igrejas.
Brinco. Brinco muito. Mas jamais ao ponto de humilhar, de estraçalhar vidas, momentos e personalidades.
Hmm? Por quê tanto sururu?
Viram-me aquele cabelo viçoso e aquela maquilhagem? Tomara eu.