sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ela é top

Ela chegou em Junho do ano passado. Caladinha, sossegadinha, a observar, a aprender. Binha lá de cima. Trazia um belo sotaque, daqueles com que se brinca. Com que eu brinco. E era do Benfas. 

Quando voltei de férias, elogiou-me as unhas amarelas na pele morena. Falámos disso um ano depois. Era vaidosa. Gostava das suas unhas, do seu cabelo preto comprido. De compras. Falei-lhe da minha cabeleireira, falou-me do seu ginásio. Suámos juntas. Rimos. Jantámos, bebemos. Contou-me as desventuras da sua casa, as loucuras de adolescência. Um dia, usou uma expressão muito própria que, com aquele sotaque carregado do Puorto, nunca mais me largou. Antes de a conhecerem pessoalmente, muitos já tinham ouvido falar dela. 

Ao longo de pouco mais de um ano, transformou-se numa profissionalona. Que mete gente com 30 anos de experiência a um canto. Com gosto por aprender, humilde, perguntadeira. Responsável. Divertida. Risonha. No último dia de trabalho, a poucas horas de sair e sabendo que não era para voltar, ainda andava feita formiguinha a arrumar prateleiras. É o que costumo dizer. Não tenho que ensinar ninguém a ser profissional. É-se.

Hoje, não sabia como seria a despedida. Tenho pena. Mas tanta tanta pena. O mundo é injusto e a vida, às vezes, parece uma merda. Saí do tasco a chorar, depois de abraços, com um postal na mala, para ler em casa, porque soluçar no metro não é a minha cena.

Ela é top. Raio da miúda.


P.S.: Podes sempre saber da novas por aqui, Póboas. Até já.

4 comentários:

Debitem lá essas chatices...