segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Vai não vai, vai não vai


Fui.
Entrei no cabeleireiro. Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Assim que passo a porta, vejo a minha cabeleireira macha sentada numa das cadeiras dos clientes a betumar o cabelo com uma pasta/tinta qualquer. Parei a olhar para ela com sorriso nos lábios, ela vê-me: "olá, está boa?". "Ocupada?", perguntei eu. "Não. Não demoro nada." Sentei-me. Ela tem uma crista. De lado rapado, em cima crista. Assim que me sorriu, percebi que era um dia sim. Daqueles em que ela demora o que tempo que tem que demorar e que cacareja. 

"Vamos a isto? É para cortar?
Olé.
Vamos inovar?
Inovar? Como assim? 
Qualquer coisa diferente. Uma insígnia? Cruz vermelha?
(No limite era uma serpente numa palmeira!)
Errrrrrrr. Queria o mesmo. Curto."

Lavar o cabelo. Pôr a batinha. Sentar à frente do espelho. Diz a outra "cuidado com o descolorante, isso mancha". E foi a partir daí que não se calou. Acordou e apeteceu-lhe mudar. Descolorar o cabelo e pintar a crista de azul. 

"E nós?
Sugira.
Atrás, em bico, triângulo.
Esqueça lá isso. Curto atrás e maior à frente. 
Ah, tem de mudar. Mas já percebi que não é hoje.
Corto de dois em dois meses. Nada mau! Além disso, os velhos são avessos à mudança! Ou porque sou nova ou porque tenho o cabelo não sei quê ou porque tenho um piercing.
Tem um piercing? Mostre.
Mostro o dito cujo.
Tão discreto. Mas olhe, fica-lhe bem. Fica-lhe mesmo muito bem."

Passámos depois para o trabalho. Daí para o barco que ela apanha diariamente para vir para a margem norte do Tejo. Daí para a ouvir imitar peixeiras. Depois para a rua dela, onde ouve escarcéu ontem à noite e era ouvi-la a imitar inglês macarrónico. Parti-me a rir. Permitam-me explicar como ela é. 1,70-1,75m. Provavelmente cerca de 100 kg, grandes mamas. Cabelo já foi referido. Piercing no queixo e sobrancelha. Não falemos das orelhas. Tatuagens. Bermudas amarelas de cintura tão descaída que lhe vi as boxers com corações. Casaco de malha com riscas coloridas grossas na horizontal. Macha. Grande. A imitar indianos, gajos grandes de cor negra, polícias e afins. Adoro. Com o cabelo cheio de creme descolorante.



Acaba-me o penteado. Termina com cera. Tenho vontade de comer o cabelo.  "Sharon Stone no Instinto Fatal".
Estou viva. E ainda loira. E sou capaz de ter um picador de gelo a querer saltar da gaveta...

 Instinto Selvagem (1992) -  A escritora Catherine Tramell (Sharon Stone)é responsável pela mais famosa cruzada de pernas do cinema  Foto: Reprodução

10 comentários:

Debitem lá essas chatices...