"Para se assegurar de que a amizade erótica nunca se deixaria vencer pela agressividade do amor, espaçava intencionalmente os encontros com as suas amantes permanentes. Tinha o método perfeito e costumava apontar-lhe as vantagens, dizendo aos amigos: «Há que observar a regra dos três. A mesma mulher num espaço de tempo muito curto, nunca mais de três vezes. Anos e anos, só se deixarmos passar pelo menos três semanas em cada encontro.»
Este sistema dava-lhe a possibilidade de nunca romper com as amantes e de tê-las em abundância. Nem sempre era bem entendido. De todas as suas amigas, quem o entendia melhor era Sabina, uma pintora. Esta dizia-lhe: «Gosto muito de ti porque és precisamente o contrário do kitsch. No reino do kitsch, tu eras um monstro. Num filme americano ou num filme russo nunca passarias de um caso repugnante.»"
"Tomas pensava consigo próprio que ir para a cama com uma mulher e dormir com ela são duas paixões não só diferentes como quase contraditórias. O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que se sente por uma única mulher)."
"Conseguiu endireitar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse-lhe: «É bom saber que és tão forte!»
Mas, bem lá no fundo, acrescentou para si própria; Franz é forte, mas a força dele está unicamente voltada para fora. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é muito fraco. A fraqueza de Franz chamava-se bondade. Franz seria incapaz de dar uma ordem a Sabina, Nunca lhe ordenaria, como Tomas dantes fazia, que deitasse o espelho no chão e se pusesse a passear toda nua em cima dele. Não que a sensualidade lhe falte - não tem é força para lhe dar ordens. Há coisas que só se podem fazer com violência. O amor físico é impensável sem violência."
"Disse-lhe: »Ouve, Tereza! O que é que tu tens? Há já algum tempo que te acho estranha. Sinto-o. Sei-o.»
Ela abanou a cabeça: «Não, não tenho nada.
- Não digas que não!
- É a mesma coisa de sempre», disse Tereza.
«A mesma coisa de sempre» queria dizer que ela tinha ciúmes e que ele continuava a traí-la.
Mas Tomas voltou a insistir: «Não, Tereza. Agora é diferente. Nunca te vi em tal estado.»
Tereza replicou-lhe: «Ora muito bem! Já que mo pedes, vou mesmo dizer-te: vai lavar a cabeça!»
Tomas não percebia.
Ela disse-lhe tristemente, sem agressividade e quase com ternura: «É que já já alguns meses que trazes um cheiro insuportável nos cabelos. Tresandam a sexo. Não to queria dizer. Mas já perdi a conta às noites em que me tens obrigado a respirar o cheiro do sexo das tuas amantes!»
Ao som destas palavras, voltaram a dar-lhe as cãimbras no estômago. Era desesperante! Esfregava escrupulosamente o corpo todo, as mãos, a cara, para tirar toda e qualquer réstia de cheiros desconhecidos. Nas casas de banho alheias, evitava sempre os sabonetes. Andava munido com um sabão de seda. Mas tinha-se esquecido do cabelo. Não, nos cabelos nunca tinha pensado!
E lembrou-se daquela mulher que se punha a cavalo na sua cara e lhe exigia que fizesse amor com a cara e com o alto da sua cabeça. Como a detestava agora! Via que não podia desmentir nada e que só podia pôr-se estupidamente a rir e depois ir à cada de banho lavar a cabeça.
Tereza voltou a acariciar-lhe a testa. «Deixa-te estar deitado. Já não vale a pena. Estou habituada.»"
"Na terceira parte deste romance, evoquei Sabina seminua, com o chapéu de coco na cabeça, de pé, ao lado de Tomas, todo vestido. Mas há uma coisa que ocultei. Enquanto se viam ao espelho e ela se sentia excitada com o ridículo da situação, imaginava que, tal como estava, com o chapéu de coco na cabeça, Tomas a obrigava a sentar na retrete e a esvaziar os intestinos à sua frente. O coração começou a bater-lhe mais depressa, as ideias a turvarem-se-lhe; empurrou Tomas para cima da carpete; no minuto seguinte, estava a gritar de prazer."
em A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
Eu não tenho a culpa, a sério. Todo o livro em que pego tem destas pequenas pérolas...
Pois... Tu não tens culpa!!! Right... *rolling eyes*.
ResponderEliminarQual é o próximo livro que vais ler que, CURIOSAMENTE, não sabias que tinha cenas erótico-pornográficas?
O Último Tango em Paris?
Instinto Fatal?
Eduardo Mãos-de-Pénis?
;)
Ted
ResponderEliminarOpá, desculpa lá mas não fazia a mínima que estes livrinhos de culto tivessem estas poucas vergonhas no meio das suas páginas!!
Já me tinham falado do Último Tango em Paris... :p
Que também é um livro (e filme) de culto. No seu género!
ResponderEliminarTed
ResponderEliminarE se eu te disser que nunca vi o filme...?
HEREGE!!!! :p
ResponderEliminarTratarei de fazer por vê-lo. Aconselhas-me a fazê-lo acompanhada?
ResponderEliminarSim... Por um gajo não-casado e tão louco como tu! Vai sair daí uma festa pouco boa vai... :)
ResponderEliminarTed
ResponderEliminarNão percebi isso do não casado :p E do louco como eu. E da festa pouco boa :p
Queres um desenho? :D
ResponderEliminarSó se for dos bons!
ResponderEliminar