"Ela não era o tipo de criança que toleraria um treino apropriado. Acontece que há pessoas assim. São abençoadas com um talento maravilhoso, mas não são capazes de esforço para o sistematizarem. Acabam por o desperdiçar em pequenos nadas. Eu própria conheci pessoas que agiam assim. De início, pensamos que são assombrosas. Conseguem decifrar uma peça incrivelmente difícil e executam-na de um modo quase perfeito, do início ao fim. Vemo-las executar a peça e sentimo-nos avassalados. E pensamos: «Eu nunca conseguiria fazer o mesmo, nem num milhão de anos». Mas não são capazes de mais. Não conseguem ultrapassar esse limiar. E por que razão não conseguem? Porque são incapazes do esforço. Ninguém conseguiu incutir-lhes a disciplina necessária. Foram mimados. Possuem apenas o talento necessário para executarem bem sem qualquer esforço especial e conseguiam que as pessoas as elogiassem desde cedo; por conseguinte, qualquer empenho lhes parece estúpido. Limitam-se a pegar numa peça que qualquer criança teria que aperfeiçoar durante três semanas e conseguem tocá-la com esmero em metade do tempo; o professor presume que se esforçaram e permite-lhes avançar para a etapa seguinte. Essas crianças conseguem isso em metade do tempo e avançam então para a próxima peça. Nunca chegam a conhecer o que significa ser repreendido pelo professor e ficam assim desprovidas de um elemento crucial e necessário para o desenvolvimento da sua personalidade. É uma tragédia."
em Norwegian Wood, de Haruki Murakami
Olha... Um excerto normalzinho... :)
ResponderEliminarVês? Normal... (É aguardar os próximos ;) )
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