domingo, 28 de agosto de 2011

O IndiferentePosso amar tanto louras como morenas, 
A que cede à abundância e a que trai por pobreza, 
A que busca a solidão e a que se mascara e brinca, 
Aquela que o campo cultivou e a da cidade, 
A que acredita, e a que hesita, 
A que ainda lacrimeja com olhos esponjosos, 
E a rolha seca que nunca chora. 
Eu posso amar essa e esta, e tu, e tu, 
Posso amar qualquer uma, desde que não seja leal. 

Nenhum outro vício vos satisfará? 
Não vos será útil fazer como as vossas mães? 
Ou, gastos todos os velhos vícios, inventaram novos? 
Ou atormenta-vos o medo de que os homens sejam fiéis? 
Oh, não o somos, não o sejais vós também, 
Deixai-me conhecer, eu e vós, mais de vinte. 
Roubem-me, mas não me prendam, deixai-me ir. 
Devo eu, que vim a estas dores através de vós 
Tornar-me vosso fiel súbdito, porque sois leais? 

Vénus ouviu-me suspirar esta canção, 
E pela maior doçura do amor, a variedade, jurou 
Que a não ouvira até então, e não mais seria assim. 
E foi-se, investigou, e depressa regressando 
Disse: «Enfim, existem umas duas ou três 
Pobres heréticas do amor 
Que pretendem instaurar a perigosa constância. 
Mas eu disse-lhes: Dado que pretendeis ser leais, 
Sereis leais para com aqueles que vos sejam falsos.
» 


John Donne, in "Poemas Eróticos" 
Tradução de Helena Barbas

3 comentários:

  1. :O
    OMG! Isto parece bruxaria!:P

    Recentemente virei-me precisamente para os Poemas Eróticos do Donne e estava agora a abordar este tema com um colega e chego aqui e...ta-dah!!!

    xD

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  2. Tens conversas interessantes, tu! Poemas eróticos e tal... ;)

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  3. Menos que isso não podia admitir! Afinal, sempre vou sendo da realeza...:P

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Debitem lá essas chatices...